Neste ano de 2026 assinalam-se quatrocentos anos do martírio do Beato Francisco Pacheco, ilustre filho de Ponte de Lima, jesuíta, missionário e mártir da fé cristã no Japão. A efeméride constitui uma ocasião privilegiada para recordar uma das figuras mais notáveis da história limiana e uma das personalidades portuguesas que mais se distinguiram na extraordinária epopeia missionária levada a cabo pela Companhia de Jesus no Oriente.
Francisco Pacheco nasceu em Ponte de Lima, em 1565, no seio de uma família da nobreza local. Desde cedo revelou uma profunda sensibilidade religiosa, ingressando na Companhia de Jesus em Coimbra no ano de 1585. A vocação missionária levou-o a partir para o Oriente, seguindo a rota então percorrida pelos missionários portugueses que procuravam levar o Evangelho aos povos da Ásia.
Depois de passar pela Índia Portuguesa, onde completou a sua formação e foi ordenado sacerdote, seguiu para Macau e posteriormente para o Japão, território onde viria a desenvolver a maior parte da sua actividade apostólica. O Japão vivia então um dos períodos mais fascinantes e simultaneamente mais dramáticos da sua história religiosa. Após décadas de expansão do cristianismo, iniciado com São Francisco Xavier em 1549, sucederam-se perseguições cada vez mais severas contra os missionários e os convertidos japoneses..
Foi neste contexto particularmente difícil que Francisco Pacheco revelou as suas extraordinárias qualidades humanas e espirituais. Homem culto, prudente e dotado de grande capacidade de liderança, assumiu responsabilidades crescentes no seio da missão jesuíta japonesa, chegando a exercer o cargo de Provincial da Companhia de Jesus no Japão, uma das mais elevadas funções da estrutura missionária da época.
Enquanto muitos missionários eram expulsos ou forçados à clandestinidade, Francisco Pacheco permaneceu junto das comunidades cristãs perseguidas, apoiando os fiéis e assegurando a continuidade da acção pastoral. Tinha plena consciência dos riscos que corria. Sabia que a sua presença no território japonês era considerada ilegal pelas autoridades e que a captura poderia significar a morte. Ainda assim, recusou abandonar aqueles que lhe haviam sido confiados.
Em 1625 foi preso juntamente com outros missionários e cristãos japoneses. Durante meses sofreu as duras condições do cativeiro, permanecendo firme Francisco Pacheco não foi apenas um acontecimento religioso. Representou também o culminar de uma vida inteiramente dedicada ao serviço de Deus e da Igreja. A serenidade com que enfrentou a morte impressionou profundamente os seus contemporâneos e contribuiu para consolidar a sua fama de santidade.
A Igreja reconheceu oficialmente esse testemunho quando o Papa Pio IX procedeu à beatificação dos Mártires do Japão, em 7 de julho de 1867. Entre eles encontrava-se o jesuíta limiano Francisco Pacheco, cujo nome passou a integrar o vasto elenco dos homens e mulheres que, ao longo dos séculos, deram a vida pela fidelidade ao Evangelho.
Embora não tenha ainda sido canonizado, a sua memória continua viva tanto na Igreja Universal como na Companhia de Jesus. Diversos testemunhos de graças atribuídas à sua intercessão têm sido referidos ao longo dos anos por devotos que nele encontram um exemplo de fé firme, perseverança e entrega total à vontade de Deus.
Em Ponte de Lima, a recordação do Beato Francisco Pacheco mantém-se particularmente presente. A sua ligação à terra natal nunca foi esquecida e o seu testemunho continua a inspirar sucessivas gerações de limianos.
Beato Francisco Pacheco, Padroeiro do Preceptorado de Ponte de Lima da Militia Sanctæ Mariæ
De forma muito especial, o Preceptorado de Ponte de Lima da Militia Sanctæ Mariæ tem o Beato Francisco Pacheco como seu padroeiro. Esta escolha não é meramente simbólica. Representa o reconhecimento das virtudes cristãs que marcaram a sua vida e o desejo de preservar e divulgar a sua memória junto da comunidade.
Ao longo dos anos, a Militia Sanctæ Mariæ tem promovido diversas iniciativas destinadas a aprofundar o conhecimento da vida e obra do mártir limiano.
Entre elas merece particular destaque a comemoração dos 150 anos da sua beatificação, realizada em 7 de julho de 2017.
Nessa data, a Militia Sanctæ Mariæ organizou um programa comemorativo que integrou uma Eucaristia solene na Igreja Matriz de Ponte de Lima e uma conferência pública realizada no Auditório Municipal dos Paços do Concelho. A conferência foi proferida pelo Reverendíssimo Padre Dr. António Júlio Trigueiros, SJ, da Companhia de Jesus, e pelo Engenheiro João Gomes d'Abreu e Lima, constituindo um importante momento de reflexão histórica e espiritual sobre a figura do Beato Francisco Pacheco. A iniciativa contou com o apoio da Paróquia de Santa Maria dos Anjos e da Câmara Municipal de Ponte de Lima, demonstrando a relevância que esta figura continua a assumir na vida cultural e religiosa do concelho.
Importa igualmente recordar que, durante o período em que o Monsenhor Dr. José de Sousa foi pároco de Ponte de Lima, a Militia Sanctæ Mariæ promoveu a electrificação da rosácea existente na capela da Igreja Matriz dedicada ao Beato Francisco Pacheco. Este gesto, aparentemente simples, representou um significativo contributo para a valorização daquele espaço de devoção e para a dignificação do património religioso ligado ao mártir limiano.
A celebração dos quatrocentos anos do martírio do Beato Francisco Pacheco constitui, assim, muito mais do que a evocação de um acontecimento distante. É um convite à redescoberta de uma figura que honra simultaneamente Ponte de Lima, Portugal, a Companhia de Jesus e a Igreja Católica.
Num tempo marcado pela incerteza, pelo individualismo e pela fragilidade das convicções, o exemplo de Francisco Pacheco continua a interpelar-nos. A sua vida recorda-nos a importância da fidelidade aos valores em que acreditamos, da coragem perante as dificuldades e da disponibilidade para colocar o bem comum acima dos interesses pessoais.
Quatro séculos após o seu martírio em Nagasaki, a memória do Beato Francisco Pacheco permanece viva. Permanece viva na Igreja que o venera, na Companhia de Jesus que o conta entre os seus missionários mais ilustres, na sua terra natal que se orgulha de o ter visto nascer e em todos aqueles que encontram no seu testemunho uma inspiração para viver com maior autenticidade a sua fé e os seus compromissos.
Ao assinalarmos esta significativa efeméride, prestamos homenagem a um dos maiores filhos de Ponte de Lima e renovamos o dever de conservar e transmitir às futuras gerações a memória daquele que levou o nome da sua terra até aos confins do Oriente e que, no dia 20 de junho de 1626, em Nagasaki, no Japão, entregou a própria vida por Cristo. Quatrocentos anos depois do seu glorioso martírio, o exemplo do Beato Francisco Pacheco continua a inspirar os que procuram viver a fé com coragem, fidelidade e espírito de serviço.
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José Aníbal Marinho
Preceptor do Preceptorado de Ponte de Lima da Militia Sanctæ Mariæ