No passado dia 18 de julho, na sede do Priorado de São Nuno de Santa Maria (Braga), Dia do Co-padroeiro do Preceptorado de Braga, S. Frei Bartolomeu dos Mártires, realizou-se o capítulo Prioral de S. Nuno de Santa Maria. Presidiu ao Capítulo o Prior. Após as orações iniciais, a leitura da Regra (cap. V, 1 e 2) o Prior fez o seguinte comentário:
Caros irmãos,
Cristo chamou-nos a preservar a Igreja como um espaço acolhedor e seguro: uma comunidade onde todos têm lugar e onde a fé e a confiança na ação divina sustentam a superação dos momentos mais difíceis da caminhada.
Ao longo da história, ventos adversos ameaçaram a Igreja, uma frágil barca na qual todos peregrinamos com Pedro (e os seus sucessores) ao leme.
E assim, dois mil anos após Jesus ter percorrido os caminhos deste mundo, além dos inúmeros e cada vez mais ferozes ataques externos, verifica-se que alguns cristãos consideram que a defesa da Igreja, assente numa determinada conceção de tradição, de liturgia, de pureza doutrinal ou de identidade eclesial, pode justificar uma eventual rutura da comunhão.
Meus irmãos, permitam-me esta reflexão: foi o que ocorreu, de formas distintas, com Lefebvre; e, com Lutero e com tantos outros que trilharam o caminho da divisão… o caminho que tanto aproveita a Satanás e a todos os espíritos malignos que andam pelo mundo para perder as almas.
Não estou a afirmar que Lutero e Lefebvre são iguais!... ambos acreditaram defender o essencial, mas ambos correram o risco de deslocar o centro do cristianismo da pessoa de Cristo para uma verdade assumida como posse própria, entrando assim em oposição à Igreja. Não por identidade doutrinal, nem por simetria histórica, mas pela lógica profunda do gesto, os seguidores de Lefbvre podem ser aproximados a Lutero porque este julgou libertar o Evangelho do cativeiro romano e os seguidores de Lefebvre julgam salvar a Igreja Católica Apostólica Romana da modernização que a desconstrói.
Ambos, ainda que por caminhos diferentes, acabaram por colocar a consciência que discerne, denuncia e separa acima da comunhão verdadeira; colocaram a separação acima do espaço onde a fé é recebida, transmitida e... corrigida quando necessário.
Todos reconhecemos qua a Igreja atravessou crises de governo, ambiguidades doutrinais, cedências pastorais, empobrecimentos litúrgicos ou formas reais de mundanização. Seria ingénuo da minha parte confundir a infalibilidade do Papa e a Santidade da Igreja com a ideia de que todos os seus membros agem sempre com plena retidão, prudência e fidelidade ao Evangelho (tal como à Tradição, à Liturgia, à Pureza Doutrinal e à Identidade Eclesial).
Mas, será que isso é razão suficiente para invocar o tão falado estado de necessidade? Um estado de necessidade que abre uma nova crise. E sim, esta crise pode levar a um verdadeiro estado de necessidade! A uma rutura?
As razões para a invocação do estado de necessidade não são falsas porque não se esteja em crise; muito menos porque todas as denúncias de derivas pós-conciliares devam ser consideradas como rebelião. O estado de necessidade invocado torna-se falso quando procura, eventualmente, transformar uma eventual necessidade, ligada à resistência e ao sofrimento de membros da Igreja, numa realidade de natureza quase constituinte, capaz de fundar uma nova sucessão episcopal, subtraída a Pedro, que como bem sabemos é aquele a quem Jesus entregou as chaves do Reino dos Céus e conferiu autoridade para ligar e desligar na terra e no céu.
É verdade que Lefebvre percebeu que a Igreja estava demasiado ansiosa por se tornar inteligível ao mundo e que assim poderia estar a perder a gravidade do eterno; intuiu que o sagrado não pode nunca ser entregue à volatilidade do gosto histórico; compreendeu que a liturgia não é um ornamento devocional, mas uma forma teológica da fé.
Contudo, desse diagnóstico real retirou uma conclusão insustentável: a de que seria possível salvar-se da crise separando-se da comunhão, convertendo-se assim no fundamento de um princípio alternativo capaz de promover a fragilidade da autoridade, do qual pudesse nascer uma nova fonte de autoridade. Lefebvre julgou salvar a Tradição da modernização; porém, ao opor-se à modernidade, reproduziu precisamente o seu núcleo mais profundo: a consciência soberana que pretende julgar a Igreja visível.
Também Lutero julgou reconduzir a Fé ao Evangelho e libertá-la das deformações históricas de Roma; mas acabou por inaugurar a centralidade moderna da consciência que julga a autoridade em nome de uma verdade considerada mais originária do que a mediação eclesial.
Mas o problema mais grave talvez seja mais fundo: tanto Lutero como Lefebvre que disseram agir por fidelidade, o primeiro ao Evangelho, e o segundo à Tradição, ao invocar esta fidelidade, negaram a autoridade de Pedro, o Vigário de Cristo.
E, como bem sabemos, a autoridade, na Igreja, pode ser frágil sem nunca deixar de ser necessária. Pode ser exercida de modo inadequado sem nunca perder a sua função; pode até, em certos momentos, obscurecer a verdade que é chamada a servir. Contudo, nenhuma dessas fragilidades confere àqueles que, em plena consciência, discordam dessa autoridade, o direito de se constituírem como última instância da verdade católica.
Porque, quando isso acontece, deixa de ser a Igreja a guardar e a transmitir o Evangelho, a Tradição, a Doutrina e a Liturgia; passa a ser o sujeito separado, ou a comunidade que dele nasce, a decidir onde e como o Evangelho é transmitido e ensinado e onde e como a Tradição sobrevivera contra a própria Igreja.
Tanto quanto sabemos, Jesus não deixou um tratado de liturgia, não escreveu um manual de cerimónias, nem fixou um código de vestes sagradas ou uma disciplina ritual minuciosa. O centro do seu ensino estava noutro lugar. Falou de justiça, misericórdia, de perdão; falou da relação com o dinheiro e com o poder; combateu a hipocrisia religiosa e defendeu a dignidade dos últimos. Recordou-nos que o ser humano vale mais do que qualquer norma e que o nosso próximo está acima de qualquer observância.
Por isso, a nós que, ao livremente aderirmos à MSM, e que juramos
impõe-se-nos uma pergunta: «onde fica Jesus de Nazaré?» e «em que medida seguimos os seus ensinamentos?»
- Servir a fé (Apoiar, proteger, fortalecer e irradiar a fé Católica em todos os campos da atividade humana, confessando-a diante dos homens em toda a sua plenitude, pureza e vigor. Promover a união entre todos os cristãos em cumprimento da vontade de Jesus Cristo e como condição para o advento de uma era de união e de paz entre todas as nações.)
- Defender a Igreja Católica (por meio de oração e de obras contra toda intenção de afastá-la de sua sagrada missão, de ofendê-la e destruí-la.)
- Promover a cristandade e a paz (: A Militia Sanctæ Mariæ serve o povo de Deus, sobretudo os fracos, oprimidos e excluídos; combate as ideologias que atentam contra a dignidade e liberdade do homem criado à imagem e semelhança de Deus, e procura estabelecer a cidade terrestre fundamentada nos princípios do Evangelho, respeitando as liberdades essenciais do Homem e das Comunidades Humanas, de acordo com a Doutrina Social da Igreja e os ensinamentos do Concilio Vaticano II.)
Como vimos atrás, ao longo da história da peregrinação da sua barca, uns, agarrados à consciência que pretendia libertar o Evangelho da Igreja e outros que pretendiam (e pretendem) salvar a Tradição da Igreja contra a mesma Igreja, substituíram a pessoa viva de Cristo por uma sua ideia de cristianismo.
Aparentemente, para estes, ser seguidor de Cristo tornou-se, antes de tudo, um marcador de identidade, e não uma aventura espiritual. Definiram-se fronteiras, códigos e sinais de pertença; passou a distinguir-se quem está «dentro» e quem está «fora», quem domina a gramática correta e quem dela fica excluído. Até a defesa do eterno, quando separado da unidade visível da Igreja, se tornou o nome nobre de uma fratura.
Cristo não nasceu para formar guardiões de um qualquer museu, nem para autorizar consciências soberanas a escolherem, contra a sua Igreja, o lugar onde a verdade subsistiria.
Cristo fez-se Homem para nos chamar a sair de nós mesmos, para reconhecer o outro, para amar para além de toda a pertença e para derrubar fronteiras em vez de as sacralizar.
Quando nos deixamos envolver nestas questões cismáticas, deixamos de defender o Evangelho, a Liturgia ou a Tradição; quando essa defesa se converte em separação, deixamos de ser o rosto de Cristo. E, Evangelho sem comunhão pode tornar-se posse privada, e a Tradição sem Evangelho pode transformar-se em refúgio identitário.
Meus irmãos,
Termino a pedir a Nossa Senhora que por nós interceda para termos a força necessária para Servir a fé promovendo a união entre todos os cristãos em cumprimento da vontade de Jesus Cristo; que nos dê forças para Defender a Igreja Católica e para Promover a cristandade e a paz de acordo com a Doutrina Social da Igreja e os ensinamentos do Concilio Vaticano II.
Que assim seja.
Depois do comentário, seguiu-se uma troca de impressões sobre o mesmo e foi sugerido que aquele comentário deveria ser integrado no próximo número de KAIROS.
De imediato, o Prior recebeu como Diácono de Devoção, o Diácono João Ferreira, oriundo da diocese de Viseu e que manifestou toda a disponibilidde para colaborar com a MSM nesta enorme tarefa de "alargar cá em baixo as fronteiras do Reino de Deus".
De seguida recebeu como Freire de Armas o Postulante Albertino Pereira e sua esposa como nossa Irmã. Fizeram ainda a sua Profissão como Donatos, os Freires de Armas Custódio Gonçalves e sua esposa e Pedro Kohler e sua esposa.
Seguiu-se o abraço da paz e aos orações finais de Capítulo, com imensa alegria.
Este Capítulo terminou com um lanche partilhado. Podemos dizer, com o salmista: ECCE QUAM BONUM ET JUCUNDUM HABITARE FRATRES IN UNUM (Salmo 132).