
Mensagem de Chartres 1995 e oração para o cinquentenário dos Cavaleiros de Nossa Senhora
Don Gérard Lafond, OSB (fundador da MSM)
Breve proémio
Tive o grande privilégio de ter conhecido o Fundador da MILITIA SANCTÆ
MARIÆ – Cavaleiros de Nossa Senhora, Dom Gérard-Marie Lafond OSB,
sobretudo durante vários Capítulos realizados em Chartres e no seu Mosteiro
de S. Wandrille. Durante os Capítulos tinha sempre um papel muito activo,
não fosse ele o pai desta associação de fiéis. Dava gosto falar com este Monge!
Afável, culto, profundamente mariano, um verdadeiro católico militante mesmo
na clausura do seu mosteiro. Recordo as poucas vezes em que, com outros
membros da MSM, tomávamos uma cerveja numa das esplanadas de Chartres e
onde brilhava o seu humor. Recordo, particularmente, quando lhe pedi o
Prefácio para a edição em português da Regra da MSM, a alegria que
manifestou em aceder ao meu pedido.
Creio que, comigo, estão muitos outros freires da MSM que sentiram as suas
ausências a partir do momento em que deixou o seu mosteiro e foi ocupar o
lugar de Prior Administrador e, depois, Dom Abade da Abadia de S. Paul de
Wisques, serviço que muito o ocupou e preocupou.
… Mas Dom Lafond, como o conhecíamos, tinha um amor profundo pela sua
“filha”, a MSM. A sua última mensagem aos cavaleiros é o texto que agora está
nesta edição em português. Considero-a o seu verdadeiro testamento, o
testamento de um pai para os seus filhos no qual pôs o seu coração a falar das
sua alegrias e tristezas tal como qualquer pai tem nas suas relações com os filhos
que vê crescer nem sempre como era o seu desejo.
Dom Lafond deixou-nos um manancial enorme de ensinamentos em cartas que
escreveu de Roma, durante os seus estudos que coincidiram com o decurso do
II Concílio do Vaticano e com todas as turbulências que se produziram e nos inúmeros contactos que fez com altas figuras da Igreja e em que a sua Ordem estava sempre presente.
Este “Testamento Espiritual” reflecte a personalidade do nosso Fundador e,
pessoalmente, considero-o uma dos mais importantes textos que legou à
MSM que, quando a servi como seu 7.º Mestre, fui resgatar do esquecimento
a que tinha sido votado tão importante guia para a MSM e procurei
inúmeras vezes, oralmente e por escrito, chamar a atenção do que nos quis
dizer o Fundador quer nos aspectos espirituais como organizacionais que
seria preciso rever para responder melhor aos desafios deste novo século e
milénio. A sua mensagem de “Chartres”, de 1995, no aproximar do Jubileu
do ano 2000 mantém-se de uma actualidade gritante.
O Prior de S. Nuno (Portugal), em boa hora, creio que inspirado pelo
Espírito Santo, decidiu traduzir e publicar esta “mensagem” de Dom Lafond.
Será um importante contributo para conhecer melhor o espírito do nosso
Fundador ao criar no final da II Guerra Mundial a MSM apesar da
arquitectura geopolítica e espiritual do chamado Ocidente não ter mudado
assim tanto e apresentar inúmeras semelhanças, agravadas, sem dúvida, pelo
crescente neo-paganismo e indiferentismo religioso. Se o comunismo já
passou de moda temos pela frente um combate igualmente duro com a
expansão da Ideologia do Género e do pensamento Woke, novos
totalitarismos ateus. Perante este quadro, quem pode ficar indiferente?
Quem?
Posso concluir, interpretando o pensamento de Dom Lafond, sobretudo o
que expressou nesta sua “Mensagem de Chartres”, que mais do que nunca a
obra que fundou, a MSM, tem uma grande actualidade e é um desafio para
nós, membros dos Cavaleiros de Nossa Senhora a quem não é permitido
ficar de braços cruzados a ver a derrocada da nossa Cultura, a delapidação do
nosso património espiritual e a imposição da perda de memória colectiva de que nos falava magistralmente S. João Paulo II Magno na “Ecclesia in
Europa”. Num tempo de “desconstrução” temos de saber rezar e agir, seguindo
o lema beneditino, para construir (ou reconstruir?) um mundo mais conforme
aos desígnios de Deus (cf. nº1. do Prólogo da Regra da MSM). Era esta a
vontade de Dom Lafond! Qual é a nossa? Queremos ser fiéis às nossas
promessas ou queremos somente guardar as aparências, obra do Demónio?
Espero vivamente que a leitura “ruminada” deste trabalho sirva a cada um de
nós para sermos mais e melhores “apóstolos dos últimos tempos” no dizer de
S. Luís Maria Grignion de Montfort.
Carlos Aguiar Gomes
(Miles – pauper et peccator),
7.º Mestre e primeiro servidor da MSM
Mensagem de Chartres 1995 e Oração para o cinquentenário dos Cavaleiros de Nossa Senhora
Caros irmãos, irmãs e amigos,
Aqui estou eu entre vós! Há dez anos que me afastei voluntariamente da
Ordem, não por desinteresse, mas por dever: para me entregar inteiramente à
missão que o Senhor me confiou em 1985 e que, de uma só vez, me afastou do
meu mosteiro original para me transplantar para outro lado e mudar os meus
hábitos... como Abraão! Foi para mim um apelo à conversão e um convite a
entrar mais profundamente na minha vocação monástica para a vida
contemplativa. Hoje, venho dar-vos o fruto das minhas reflexões e das minhas
orações. Mas se eu me dirigir a vós, talvez não me ouçam? - Por isso, dirijo-me
ao Senhor, para ter a certeza de ser ouvido! Começaremos com uma acção de
graças pelo 50º aniversário da Ordem; depois confessaremos os nossos
pecados, a nossa falta de amor e a nossa estreiteza de coração; finalmente,
dirigiremos uma fervorosa oração ao Senhor pela nossa conversão e renovação
da Ordem no Espírito Santo através de Maria, em preparação e expectativa da
vinda de Jesus em glória. Recolhamo-nos por um momento.
Dou-te graças, Abba, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, nosso Pai: amaste-nos a todos
no teu Filho desde antes da criação do mundo, e salvaste-nos das trevas do
pecado; deste-nos o teu próprio Filho, nascido da Imaculada Virgem Maria; ele
sofreu a sua Paixão pelos nossos pecados, ele morreu e ressuscitou por nós; vós
regenerastes-nos nas águas do Baptismo, mergulhando-nos no Mistério da sua
Morte e Ressurreição; destes-nos a tua Igreja como nossa Mãe, fazeis-nos viver
através dos seus sacramentos, alimentais-nos com a tua Palavra e com a
Eucaristia, derramais o vosso Espírito Santo sobre nós, conduzis-nos através
dos caminhos deste mundo para o vosso Reino eterno. Nunca poderemos
medir a extensão da tua misericórdia para connosco. Agradecemos-te por nos
teres dado muitas vezes a graça de evitar o pecado; e quando nos foi
permitido pecar, concedeste-nos o perdão, e nós compreendemos melhor
que éramos amados.
Agradeço-te, Senhor Jesus, por nos teres chamado a viver neste momento difícil,
no fim de um tempo de orgulho e desilusão, quando a tua Igreja está a
experimentar a tua Paixão, à espera da Ressurreição. Estamos no vosso barco,
Senhor, no barco de Pedro, e a tempestade ameaça engolir-nos a qualquer
momento. E vós, Senhor, estais a dormir! É como se estivesses ausente, e nós
somos como se estivéssemos abandonados à fúria das ondas. É claro que
podemos baixar as velas, tirar a água, e lidar com os problemas mais urgentes.
Mas sabemos que a salvação virá só de vós, e confiamos que estais connosco e
que haveis vencido o mundo. Portanto, inspira-nos a gritar-te: “Senhor,
salvador! Jesus Salvador, ajuda-nos, estamos a perecer!” Estamos a viver no
fim de um tempo que é talvez o Fim dos Tempos, e aguardamos a vossa
vinda em glória. O Espírito Santo dá-nos esta esperança, a Igreja põe nos
nossos lábios este ardente apelo dos primeiros cristãos: Maranatha! Vem,
Senhor Jesus! Nascemos, Senhor, num mundo que gerou as guerras mais
terríveis, as ideologias mais mortíferas, e deve apenas à vossa misericórdia ter
escapado à destruição total. Acabou com o nazismo, e o comunismo
começou a desaparecer da cena do mundo; mas não encontrámos a paz, e
Satanás começou a impor o seu jugo às nações, mais subtilmente e, talvez,
mais perigosamente do que nunca. No entanto, continuais a ajudar a vossa
Igreja, e agradeço-vos o inestimável dom do Concílio Vaticano II, que trouxe
à luz os fundamentos mais tradicionais da fé e a abertura do vosso povo
santo à sua dimensão católica e ecuménica. Agradeço-vos também pelos
santos Papas que se sucederam na Sé de Pedro, e em particular pelo nosso
Papa João Paulo II, pelo seu testemunho apostólico, pela sua audácia, pelo
seu amor a Maria, pelo extraordinário impulso que ele dá à vossa Igreja, pela
sua fé infalível, pela sua esperança infalível e pela sua caridade sem limites.
Torna-nos dóceis ao seu ensino, dóceis à acção do Espírito Santo tão
perceptível no nosso tempo.
Dou-vos graças, Espírito Santo, Sopro do Pai e do Filho, nosso Defensor e nosso
Consolador. É em ti que temos vida, e sem a tua presença, todos os nossos
empreendimentos murcham e morrem. Abençoado sejais vós, Paracleto
divino, que animais o grande Corpo de Cristo. Dás poder e eficácia aos
sacramentos da Igreja, distribuis os teus dons e carismas com munificência,
transformas os corações e ensiná-los a partir do interior. E, em todos aqueles
que se vos abrem, criais um coração novo e um espírito novo; renovais a face
da terra, e é através de vós que toda a criação será transfigurada, quando Jesus
vier na sua glória; então a Jerusalém celestial descerá dos céus e o Pai nos dará
o novo Céu e a nova Terra que aguardamos. Fazeis obras maravilhosas nos
nossos dias, e estais a reunir os filhos de Deus espalhados. Trabalhais para
além das fronteiras da Igreja, preparais a vinda do Filho do Homem, e tudo o
que é bom e belo no mundo é devido a vós.
Abençoado sejais vós, Espírito de luz e de amor! És tu quem deu à luz, entre os
“apóstolos dos últimos tempos” que São Luís Maria Grignion de Montfort
tinha visto em espírito, ao pequeno grupo de Cavaleiros de Nossa Senhora.
Querias que redescobrissem o espírito cavaleiresco, tal como tinha brilhado
durante algum tempo nos dias da cristandade: um espírito de serviço aos mais
pobres, um sentido de justiça, um amor à paz. Propuseste-lhes a Virgem Maria,
Mãe de Deus, como Rainha e Senhora para ser amada e servida, e implantastea
no vosso Santuário de Chartres, Nossa Senhora do Subterra, como uma
semente prometida à rica germinação. Deste-lhes amor pela Igreja e um bom
zelo para promover o Reino de Cristo Rei e desejar a vinda do Seu Reino.
Armaste-os para a guerra espiritual contra Satanás e os poderes das trevas.
Inspiraste-os a viver com simplicidade e caridade fraterna, humildade e
magnanimidade. Pediste-lhes que fossem, não teóricos ou nostálgicos do
cristianismo, mas artesãos da reconciliação e da paz, pondo-se ao serviço dos outros
em obras concretas onde se pudessem dar e gastar as suas forças por amor.
Acima de tudo, querias que fossem obras concretas onde se pudessem dar e
gastar a sua força por amor. Acima de tudo, querias afastá-los do espírito do
mundo, da sua política, da sua vontade de poder, do seu orgulho e do seu
ódio, para os fazer entrar no espírito puro do Evangelho. Eles tinham de
compreender que a Ordem era obra do Senhor, não dos homens; que tinham
de se deixar guiar por vós, sem tentarem construir para si próprios uma
instituição que se adaptasse aos seus gostos ou lisonjeasse a sua vaidade. O
cristianismo e o espírito cavaleiresco na Idade Média deviam ser uma
referência, e não um modelo a ser reproduzido. A “nova cristandade” não seria
mais do que “a civilização do amor”, baseada na liberdade religiosa, e a espada
do cavaleiro seria um sinal de recusa da injustiça, não uma arma que
derrama sangue. Ao mesmo tempo, quisestes abrir as mentes dos teus
cavaleiros à inspiração da unidade de todos os cristãos, e convidaste-os a
trabalhar nesse sentido.
Por todas estas inspirações da vossa parte, agradeço-vos, Espírito Santo de Deus.
Agradeço-vos por tantos bons trabalhos realizados ao longo dos últimos
cinquenta anos pelos Cavaleiros de Nossa Senhora - aqueles que se juntaram
ao vosso Reino celestial, e aqueles que ainda lutam aqui em baixo - agradeçovos
por tantos irmãos e irmãs que se dedicaram abnegadamente ao serviço da
Igreja e do seu próximo; agradeço-vos pelo seu progresso no amor, na
humildade, na oração. Agradeço-vos pela sua coragem na acção, pela sua
perseverança na oração, pela sua fidelidade à sua vocação cavaleiresca,
mesmo daqueles que pensavam que tinham de se distanciar da instituição.
Dou-vos graças pela presença da Ordem no mundo nesta época, nas suas
lutas, nas suas esperanças, cinquenta anos após a sua fundação, cinquenta
anos após a entrada da humanidade na era nuclear, e cinco anos antes do
Grande Jubileu do ano 2000.
No entanto, Senhor Deus Todo-Poderoso, chegou o momento de confessar os
nossos pecados e de admitir que não temos sido totalmente fiéis às inspirações
do vosso Espírito. Numa altura em que o Santo Padre convida toda a Igreja a
reconhecer os erros e crimes cometidos em seu nome pelos seus membros
pecadores no passado - especialmente durante o segundo milénio, que viu a
grande fenda entre o Oriente e o Ocidente, depois a Reforma, a Revolução, as
guerras, os genocídios e, finalmente, a grande apostasia de hoje - exorta-nos,
Senhor, a reconhecer as nossas próprias falhas, pois é mais fácil denunciar os
erros dos outros do que bater no próprio peito.
Porque é que, cinquenta anos após a fundação, somos tão poucos em número?
Que imagem demos da Ordem que tão poucos cristãos quiseram juntar-se a nós
para oferecer a Maria um título de cavaleiro digno de a servir? Será que a nossa
fidelidade à tradição não deu por vezes a impressão de cair no formalismo?
Não teremos nós, mesmo inconscientemente, preferido costumes antigos à
verdade da vida espiritual do nosso tempo? Não terão as nossas opiniões
políticas pessoais contaminado as nossas concepções sobre o Reino de Deus?
Temos estado suficientemente atentos às necessidades espirituais dos nossos
contemporâneos? Não teremos nós, na nossa louvável preocupação de manter
uma ortodoxia rigorosa, desconfiado demasiado de muitas das iniciativas que
o vosso Espírito inspirou na Igreja? Que preocupação temos com a unidade
dos cristãos? Tivemos sempre o desejo de deixar o nosso ambiente e a nossa
mentalidade para nos abrirmos às aspirações dos outros, para as
compreendermos, para as partilharmos, para as rectificarmos quando parece
necessário? Vós sabeis, Senhor, que estas perguntas não são vãs, e pedimos-Vos
que nos ajudeis a recebê-las com toda a sinceridade e liberdade de espírito.
Ajuda-nos, Senhor, a dá-las - a dar-te! - as respostas certas, e para mudar as
nossas atitudes e comportamentos adequadamente.
Este primeiro conjunto de perguntas, Senhor, leva a outro, ainda mais
fundamental. Em que medida é que recebemos, sem reservas, a letra e o espírito
do Concílio Vaticano II? Vós sabeis, Senhor, que desde o início o diabo se
insurgiu contra a renovação da Igreja que ele anunciou. “Os fumos de
Satanás entraram na Igreja”, a confusão de ideias instalou-se durante muito
tempo, as interpretações mais contraditórias foram dadas e ainda hoje são
defendidas. Alguns cristãos usam esta confusão como pretexto para
rejeitarem liminarmente o Concílio, e para se colocarem num estado de
cisma ou em perigo; outros defendem em voz alta o “espírito do Concílio” a
fim de imporem as suas ideias subversivas; outros ainda tiram partido disso
para se distanciarem da Igreja, entregando-se a um livre exame: a Igreja tornase
assim um grande mercado entre outros, onde se pode escolher de acordo
com os gostos, deixar de lado o que não se gosta e consumir o que parece
mais agradável; outros retiram-se friamente para dentro de si mesmos:
recebem o Concílio com os seus lábios, e contentam-se em dizer que o
Concílio manteve a Tradição, e que, consequentemente, não há nada a
mudar na sua forma de viver a sua fé. - Senhor, tende piedade da vossa Igreja,
que é constantemente tentada pela divisão e pelo cisma! Ajuda-nos a ver
claramente e a andar em pé! Na tua grande misericórdia, deste-nos um meio
infalível de permanecer no caminho certo, sem nos desviarmos nem para a
direita nem para a esquerda: a obediência ao Magistério vivo da tua Igreja,
nomeadamente ao Romano Pontífice e aos bispos que se lhe unem pelo
vínculo sagrado da comunhão eclesial. Agradecemos-te, Senhor, por nos teres
permitido receber, pela boca do Santo Padre João Paulo II, um ensinamento
que é perfeitamente claro e coerente, fiel ao Concílio e à Tradição, mas cheio
de audácia, nunca nos resignando à situação dramática legada pelos séculos
passados. Abre os nossos corações, Senhor, a este ensinamento, e dá-nos em
particular uma paixão pela unidade cristã. Esta é a vossa vontade, e é para
vossa glória! Através do vosso Espírito Santo, inspirai-nos gestos e acções ao
nosso alcance, para apressar o dia da plena comunhão, uma condição para o
florescimento pleno da Nova Evangelização.
Senhor, porque é que o serviço da Ordem à Igreja nos últimos cinquenta anos tem
sido tão modesto? Como é que tão poucas iniciativas significativas podem ser
atribuídas aos Cavaleiros da vossa Santa Mãe? Certamente, estás ciente das
boas obras feitas discretamente por cada um, e dignas-te a aceitá-las; muitos
dos nossos irmãos e irmãs estão presentes, aqui e ali, para combater a boa luta;
ninguém esquece as Fraternidades e Associações fundadas pela Ordem e
dirigidas com competência por alguns dos seus membros; mas quantos irmãos
e irmãs se dedicam a eles? Muito poucos, de facto. Estas actividades não
conseguem mobilizar o conjunto da MSM. No entanto, há muitas oportunidades
para servir a Deus e ao nosso próximo no nosso mundo conturbado. Em
qualquer momento, ouvimos falar de obras admiráveis realizadas por alguns
cristãos determinados a favor das vítimas de conflitos na Europa ou no Médio
Oriente, ou para a ajuda da Igreja em perigo na Europa Oriental, América do
Sul ou noutros lugares; outros cooperam eficazmente na reconstrução de
Igrejas e sociedades arruinadas por décadas de domínio comunista; outros
promovem a aproximação entre povos através de peregrinações ou reuniões
internacionais; apoiam os esforços de desenvolvimento em África; trabalham
para o estabelecimento de mosteiros em países do Terceiro Mundo; participam
activamente no ecumenismo, especialmente ajudando a Igreja Ortodoxa, a
nossa igreja irmã, sempre que possível. Sob a inspiração do vosso Espírito
Santo, Senhor, uma multidão de grupos de oração está a surgir em todo o
mundo; estes grupos ecoam frequentemente as mensagens de Nossa Senhora
para a conversão das nações (por exemplo, em Medjugorje). Só Vós, Senhor,
sabeis tudo o que o vosso Espírito produz, e os instrumentos que desejais
utilizar para os vossos propósitos. Neste vasto campo, onde estão os Cavaleiros de
Nossa Senhora? Esta questão deveria fazer-nos pensar. Senhor, esperais muito
dos vossos cavaleiros, mas recebeis pouco. Conheces as razões para esta
mediocridade. Fazei-nos compreender, Senhor, o que queres que façamos pelo
teu Reino. Despoja-nos de tudo o que dificulta a fecundidade espiritual da tua
Ordem. Ilumina-nos, e dá-nos a força para responder ao teu apelo com toda a
generosidade necessária.
Senhor, há algo ainda mais grave. Como foi semeada a zizania no nosso campo?
Porquê tantas crises sucessivas que abalaram a Ordem? Como é que os
cristãos dedicados a Maria nem sempre vivem em caridade fraterna? Porquê
estas rivalidades, estes julgamentos peremptórios e definitivos, estas
excomunhões, estes desacordos que vivemos durante estes cinquenta anos?
Não será porque alguns se consideraram, ou ainda se consideram, como os
proprietários da Verdade, ou pelo menos os seus intérpretes autênticos?
Teremos nós, por acaso, esquecido que DEUS É AMOR? A fé não foi
contaminada por ideologias? Ou temos tendência para dogmatizar as nossas
próprias opiniões, condenando arbitrariamente as dos outros? A vinda do
Reino de Cristo é o nosso único objectivo? Ou pintamo-lo com as nossas
próprias cores, confundindo pátrias terrestres e celestes em vez de as
unirmos, distinguindo-as? Que fizemos nós da humildade, o fundamento da nossa
Regra? Será que pensamos estar a defender a nossa dignidade pessoal, mesmo
que ofendida, ignorando o facto de que o Senhor se tornou nosso Servo,
aniquilou-se até à morte na cruz, e ordenou-nos que o imitássemos? - Senhor,
pedimos-te perdão por todas as nossas divisões passadas e presentes. Dá-nos a
graça de as detestar, e de regressar rapidamente à Lei da Caridade, na qual se
resume toda a tua mensagem de salvação. Compreendemos agora porque nos
deixas um pouco de lado, sem nos fazer crescer, sem nos confiares uma
missão para a extensão do seu Reino: esperas simplesmente que renunciemos
às nossas formas demasiado humanas de ver e agir. E Nossa Senhora está
também à espera dos seus cavaleiros. Ela está à espera da nossa conversão.
E agora, Senhor, voltamo-nos para Maria, Tua Mãe e nossa Mãe. Tu no-la destes
no Calvário, na pessoa do Discípulo que amavas; tornámo-nos seus filhos,
recebemo-la como nossa, o nosso tesouro inestimável. Ela deu luz à vida da fé
na Igreja santa, ela vela pelo nosso crescimento, educa-nos e ajuda-nos a
encontrar o nosso lugar no Corpo de Cristo e na Jerusalém celestial. Foi
através dela que Jesus veio ao mundo para realizar a nossa salvação; é também
através dela que Ele vem em cada momento da Plenitude dos tempos, e que
virá em glória, com os seus anjos, para inaugurar o seu Reino da eternidade.
Louvado sejas, Senhor, por nos terdes dado a pequena Virgem de Nazaré
como Mãe e Rainha. Louvado sejas pela sua humildade, pela sua fé, pelo seu
amor inesgotável. Louvado sejas pela sua beleza soberana que nos encanta e
conforta, nos encoraja e nos torna fortes. Os cavaleiros honram-na, acarinhamna
e desejam servi-la como sua Senhora. Que sejam capazes de olhar para ela
incessantemente, de imitar a sua humildade, e de a escutar quando ela lhes
diz, como em Caná: “Façam o que ele vos disser”.
Ó Maria, nossa Mãe e Nossa Senhora, rogamos-vos que nos recebais com
bondade e que abençoeis o nosso espírito de penitência e o nosso propósito de
conversão. O que devemos fazer para agradar ao teu Filho? Ajuda-nos a
renunciar às nossas ideias preconcebidas e às nossas próprias vontades, e a
entregarmo-nos inteiramente ao Espírito Santo, como tu própria fizestes no
dia da Anunciação. Vós, a Nova Eva, soubestes olhar para a criação e para a
humanidade com novos olhos. Vós, a Imaculada, redescobristes o olhar
original, inteiramente puro e intocado. Amais todos os seres por si próprios e
para Deus, sem esperar nada em troca. Faz-nos mudar o nosso olhar, para que
possamos ver Jesus em tudo e em todo o lado. E antes de mais, fazei-nos
compreender a diferença entre “obras para Deus” e “obras de Deus”. Tomastes
a iniciativa de levantar, ao teu serviço, esta pequena corte dos Cavaleiros de
Nossa Senhora. Pedimos-te que mantenhas, ou tomes de novo a iniciativa.
Queremos que esta Ordem seja a vossa obra, não a nossa. Renunciamos a fazer
disto a nossa coisa, para que possa ser como a desejais. Queremos voltar à
simplicidade dos primeiros tempos.
Acreditamos que o importante na “Cavalaria de Nossa Senhora” és tu, Nossa
Senhora, e não o espírito cavaleiresco. O espírito cavaleiresco, a instituição, as
tradições, os rituais, tudo isso é apenas um meio para criar um clima, ou um espaço,
para vos amar e servir. Estamos preparados para simplificar as estruturas, para que não tenhamos de gastar muito do nosso tempo e energia
com elas. O nosso pequeno número não justifica uma máquina
administrativa pesada. Renunciamos a tudo o que possa lisonjear a vaidade
humana, através de títulos e categorias de membros. Preferimos usar os belos
nomes de “irmão” e “irmã” mais frequentemente do que o título mais difícil
de “cavaleiro”. Também queremos reservar para vós o título de “Senhora”,
tal como reservamos para São Miguel Arcanjo o título de “Grão Mestre”:
Reduziremos ao mínimo o número de categorias de membros, e não faremos
distinção entre irmãos e irmãs, mantendo as regras de cortesia que exigem
que as mulheres sejam honradas de uma forma mais especial. Do hábito,
estamos dispostos a utilizar apenas o manto, quando o resto possa
representar um obstáculo à difusão da Ordem e à facilidade de reunião.
Manteremos o Ofício em latim quando a reunião de oração for
internacional, ou em certas circunstâncias; mas é preciso lembrar que o
importante é a qualidade da oração, não a manutenção de uma tradição, por
mais venerável que ela seja... Finalmente, vamos concentrar-nos mais na
formação dos nossos irmãos do que na direcção rigorosa das suas actividades,
sendo o respeito pelo código de honra rigoroso.
Com a instituição assim aliviada, e as oportunidades de vaidade retiradas,
pedimos-lhe, ó Nossa Senhora, que nos proponhas serviços concretos para
com o próximo, em conformidade com a nossa vocação cavalheiresca.
Recordamos que os primeiros cavaleiros templários não tinham outra
ambição que não fosse garantir a segurança dos peregrinos à Terra Santa; a
nossa preocupação será a de rezar sem cessar, para aprofundar a nossa vida
espiritual e para servir os outros, esquecendo-nos de nós próprios, como vós
o fizestes ao longo da vossa vida. Consideraremos uma honra assumir
qualquer tarefa, mesmo a mais humilde, que vos decidais propor-nos.
Dito isto, estaremos mais do que nunca atentos aos sinais dos tempos,
às necessidades do Povo de Deus, às orientações dadas pelo Magistério da Igreja,
especialmente no que diz respeito à preparação do Grande Jubileu do Ano 2000.
Neste espírito, pedimos-te, ó Nossa Senhora, que abras os nossos corações a
tudo o que o Espírito suscita nos nossos dias; comprometemo-nos, durante os
anos de preparação para o Jubileu, a explorar as áreas e a estudar as realizações
daqueles que trabalham para a nova Evangelização, quer dentro dos limites da
Igreja Católica, quer mesmo para além deles. Esta exploração mobilizará todas
as nossas energias e será realizada, sob a vossa protecção, com um espírito
aberto e benevolente, embora não sem prudência, segundo as palavras do
vosso Filho: “Sede sábios como serpentes e simples como pombas” (Mt 10,16).
Desta forma, poderemos avaliar melhor a missão que nos reservastes.
Finalmente, ó Maria, faremos o nosso melhor para que sejas conhecida e
amada por todos, para que o triunfo do teu Imaculado Coração possa vir, de
acordo com a tua promessa feita em Fátima. E, no nosso zelo de preparação
para a vinda do vosso Filho em glória, esforçar-nos-emos por afastar os nossos
contemporâneos da tentação da chamada “Nova Era”, que é provavelmente
uma das últimas cartas de Satanás para estabelecer em todo o planeta um novo
paganismo e promover o reinado do Anticristo.
Obrigado, Senhor, por nos ofereceres uma caminhada de conversão. Obrigado
por nos concederes, com a vossa habitual munificência, o Dom do seu
Espírito. Obrigado por nos escolheres novamente, apesar dos nossos pecados,
como instrumentos do vosso Reino. Glória a Ti, Senhor. Ámen. Vem, Senhor
Jesus!
Orientações
- Recentrar a nossa fé e esperança na perspectiva escatológica da vinda do Senhor Jesus em glória, preparada por Maria. Mas sem cair no iluminismo! “Quanto àquele Dia e Hora, ninguém os conhece, nem mesmo os anjos do céu, nem o Filho, ninguém, senão o Pai, e só Ele” (Mt 24,36). Esta reorientação deve animar a nossa vida de oração e as nossas leituras sagradas, a nossa participação na Nova Evangelização e a nossa acção social (purificada de toda a contaminação ideológica ou política). Deve também dar-nos uma nova perspectiva: sobre a criação, ciência, tecnologia; sobre a Igreja, o ecumenismo, e, mais geralmente, a unidade (a reunião dos filhos dispersos de Deus); sobre as religiões e culturas, e a prática do diálogo; sobre as ideologias emergentes, especialmente a Nova Era.
- Definir a preparação do Grande Jubileu do Ano 2000 como o único e unificador objectivo de todas as acções da Ordem. O Santo Padre João Paulo II deu as linhas principais desta preparação na Carta Apostólica Tertio millennio adveniente: conformar-se estritamente com ela, e escolher os temas de reflexão e formação, as intenções de oração, e as mensagens de evangelização e diálogo segundo este Documento do Magistério.
- Pedir ao Espírito Santo, por intercessão de Nossa Senhora, que proponha à Ordem como um corpo constituído, e em todos os priorados, uma acção bem determinada ao serviço do próximo, e em harmonia com o espírito e os fins da Ordem. Pedir isto numa oração unânime e perseverante, acompanhada de jejum.
- Formar pequenas equipas de irmãos e irmãs, cada um dos quais é responsável por procurar, a fim de entrar em relação e diálogo profundo com eles, grupos católicos e/ou ecuménicos, comunidades, movimentos, etc., orientados para a Nova Evangelização. Apresentar ao Magistério e a toda a Ordem, num capítulo anual, os resultados desta Missão. Levar a estas comunidades a mensagem do Grande Jubileu e a de Saint Louis-Marie Grignion de Montfort (Apóstolos do fim dos tempos, Reinado de Maria, esperança escatológica).
- Ao mesmo tempo: meditar em oração sobre a “Mensagem e Oração de Chartres 1995”, comunicá-la a todos os irmãos e irmãs que se distanciaram da Ordem mas são fiéis ao Papa, convidá-los a juntarem-se a nós nos nossos esforços, e sobretudo pôr em prática, dentro da Ordem, os pontos de conversão que ela indica.
- Estudar, em grupo ou individualmente, as obras que serão recomendadas pelo Magistério da Ordem como indispensáveis ou úteis para a prossecução do nosso objectivo. A notar a partir de agora: João Paulo II: Tertio millennio adveniente (No Alvorecer do Terceiro Milénio), a Carta sobre a Unidade Ut unum sint, a Carta Oriental Lumen, etc. E também o notável trabalho de Patrick de Laubier: “Le Temps de la Fin des Temps”.
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