
Dom Gérard Lafond, OSB
Fundador da Militia Sanctæ Mariæ
Introdução
O nosso Fundador, Dom Gérard Lafond OSB, Abade Emérito de S. Paul de Wisques, faleceu em 31 de Outubro de 2010. Recordá-lo é ter presente a sua herança, que para nós é, sobretudo, mas não só, a Regra que nos legou. Esta, profundamente mariana, tem muito presente a inspiração beneditino- -bernardiana, com características modernas do ideal cavaleiresco.
Dom Gérad Lafond inspirou-se para nos entregar uma Regra, um autêntico “directório espiritual” não só na Regra de S. Bento, que cita mais de dez vezes, em S. Bernardo de Claraval (nomeadamente no livro “Em Louvor da Nova Cavalaria”) ou como em S. Luís Grignion de Montfort no seu célebre “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”, no estudo de Léon Gautier, “La Chevalerie” e nos Documentos do II Concílio do Vaticano, nomeadamente no concernente ao papel dos leigos.
Dom Lafond, como era conhecido, nasceu em 30 de Setembro de 1926, tendo feito os seus estudos secundários no Liceu de Rouen. Fortemente imbuído de um espírito militante, com um grupo de jovens como ele, inspiram-se face a uma Europa destruída pela II Guerra Mundial, no ideal da Cavalaria medieval, adaptada aos novos tempos emergentes do pós-guerra. Assim, decidem procurar apoio e orientação no Mosteiro de S. Wandrille (Normandia) onde era Dom Abade, Dom Gontard.
Era o dia 6 de Agosto de 1945. Este ouve-os e anima-os a seguir o seu ideal, que deveriam amadurecer e consolidar, garantindo-lhes, desde logo, todo apoio de que precisassem. Pouco tempo depois regressam a S. Wandrille, decididos a seguir uma nova via de apostolado laical.
Como prometido, um pouco mais tarde, Dom Gontard acolhe-os e aceita-os como filhos espirituais de S. Bento no seu mosteiro normando. Em 26 de Outubro de 1947 (na Festa de Cristo Rei, segundo o calendário litúrgico da época), Gérard Lafond e dois amigos recebem de Dom Gontard a Beneditio Novi Militis (foram, assim, armados liturgicamente os primeiros cavaleiros da Militia Sanctæ Mariæ). Nasce, em dia de Cristo Rei, assim, à sombra de um mosteiro beneditino, pela mão de um beneditino e fortemente imbuída do espírito da Regra do Santo Pai e Padroeiro da Europa, a Militia Sanctæ Mariæ.
Em 20 de Julho de 1948 entra no mosteiro de S. Wandrille com mais dois cavaleiros como postulante beneditino.
Mosteiro de S. Wandrille, França
A fundação da Militia Sanctæ Mariæ
Durante os seus estudos romanos, Dom Lafond, agora monge de S. Wandrille, em pleno Concílio, é aconselhado por vários Prelados, nomeadamente Mons Michon, Bispo de Chartres, que decide erigir canonicamente na sua diocese a Militia Sanctæ Mariæ.
Em 1964 a Militia Sanctæ Mariæ recebeu o seu primeiro reconhecimento canónico, pela mão amiga do Bispo de Chartres da época, Mgr. Roger Michon, na presença do Arcebispo de Marselha, Dom Marco Lallier e do Príncipe Xavier de Bourbon Parma, do primeiro Mestre, Jehan de Penentenyo de Kerverguen e do cavaleiro, depois segundo Mestre, André Jozan, no dia 24 de Dezembro de 1964. A primeira sede canónica passou a ser na Catedral de Chartres, na cripta dedicada a Nossa Senhora – Virgini Parituræ.
Carta de ereção canónica da MSM
Imagem actual da Padroeira da Cripta (a primitiva foi destruída na Revolução Francesa)
Lápide, na Cripta, recordando a erecção canónica em 1964 pelo Bispo Mons Roger Michon5>
Mons Michel Pansard, Bispo de Chartres, arma um cavaleiro, seguindo o Pontifical Romano, na administração da “Benedictio Novi Militis”
A administração do sacramental da Beneditio Novi Militis ocorreu por duas vezes pelo Arcebispo de Braga, Dom Eurico Dias Nogueira, na Sé Primacial de Braga e por outros Bispos e Abades beneditinos de vários países (o último, dia 25 de Novembro de 2017, por Mons. Legal, Bispo Auxiliar de Lyon).
O Senhor Dom Francisco Maria da Silva a ser recebido à porta da Catedral de Braga pelo Mestre André Jozan”
Depois a “sua” Ordem, a MSM, foi crescendo, devagar. Em 1968, é reconhecida pelo Bispo de Regensgburg (Alemanha) Mons Graber; em 1969 em Sion (Suiça), pelo Bispo Mons. Adam, segue-se Portugal, em 1975 pelo Arcebispo de Braga e Primaz das Espanhas, Dom Francisco Maria da Silva. Em 1984, o Bispo de Santander, Mons. Del Vale.
Noutros países a Militia Sanctæ Mariæ mantém um contacto oficial e acolhedor com diversos Bispos e aguarda o reconhecimento canónico do Cardeal Arcebispo de S. Paulo (Brasil). Neste momento a sua presença estende-se a 13 países de quatro continentes.
O imprimatur da versão portuguesa da nossa Regra e o Prefácio da edição portuguesa da Regra da MSM
O Senhor Dom Eurico sempre teve até à sua morte um carinho especial pela Militia Sanctæ Mariæ, como se pode constatar na carta seguinte:
No próprio dia em que, há perto de seis anos, iniciei a minha diaconia episcopal na quase bimilenária arquidiocese bracarense – depois de a ter exercido durante treze anos nas jovens igrejas de Moçambique e Angola – apercebi-me da presença de um grupo de fiéis revestidos de um hábito para mim desconhecido.
Eram os cavaleiros da “Militia Sanctæ Mariæ”.
Em breve me informei da natureza e objectivos da jovem instituição, introduzida em Braga com a aprovação e bênção do meu imediato antecessor D. Francisco Maria da Silva. E, tal como este, logo lhe ofereci toda a minha simpatia e apoio: pelos altos ideais por ela prosseguidos e pela inalterável fidelidade à Igreja manifesta pelos seus membros.
Das velhas Ordens de Cavalaria, que tanto contribuíram na Idade Média para a difusão do Ideal cristão e defesa dos valores humano-divinos contidos no Evangelho, herdou o espírito e os objectivos. Mas sabe situar-se no contacto do Mundo actual e, perante ele, assumir as responsabilidades cristãs.
Os Governos dos últimos séculos têm conservado a memória das antigas Ordens cavaleirescas em condecorações com que procuram premiar os méritos mais relevantes dos seus cidadãos, ou serviços prestados por estrangeiros, estimulando a multiplicação de uns e outros.
Mas as novas Ordens de Cavalaria pretendem muito mais. Querem que os seus membros incarnem os objectivos prosseguidos pelos seus antepassados de há quasi mil anos: promover o bem contra o mal; difundir o amor e a paz contra o ódio e a guerra; lutar pela vida con-tra a morte; defender o fraco e o oprimido contra toda a forma de injustiça e opressão; numa palavra, ser intemerato soldado de Cristo, nos quadros institucionais da Igreja Cató-lica.
O novo cavaleiro sabe que assume uma alta missão e consequente responsabilidade diante de Deus e perante os homens.
O Santo Padre João Paulo II não hesitou em definir como “forma de Acção Católica” uma das mais conhecidas instituições deste género, ao celebrar-se, há um ano, o primeiro centená-rio da fundação dos “Cavaleiros de Colombo”, na América do Norte. Em Carta de 22 de Julho de 1982 dirigida ao seu enviado pessoal às comemorações, o Cardeal Secretário do Estado Agostinho Casaroli, acentuou que os seus membros são os “verdadeiros cavaleiros do nosso tempo, tendo por escudo a fraternidade cristã, por espada a verdade, por bandeira a paz que nasce do sacrifício”.
Estas palavras podem, com inteira razão, aplicar-se aos membros da MSM que, tal como os cavaleiros de antanho se colocaram sob a protecção de S. Jorge, tomado como modelo, procuram na Mãe de Deus a sua Protectora e inspiradora celeste.
O ideal é sempre o mesmo, pois decorre do Evangelho de Cristo.
Que esta modalidade de serviço de Deus e do seu Povo se desenvolva no seio da Igreja bra-carense são os votos do seu actual Pastor, na esteira do seu venerado Antecessor.
Braga, 31 de Julho de 1983
+Eurico Dias Nogueira
Arcebispo Primaz
O Arcebispo de Braga e Primaz das Espanhas celebra a Santa Missa na presença do 6º Mestre da MSM, Jacques Pellabeuf, e de alguns freires portugueses (primeiros anos do séc. XXI)
Também o Arcebispo de Braga e Primaz das Espanhas, Dom Jorge Ortiga, tem tido gestos de grande simpatia para com a MSM. Assim, no livro “Militia Sanctæ Mariæ – Seguindo os critérios de eclesialidade” (Braga, 2016), escreveu:
«A Militia Sanctæ Mariæ pautou sempre o seu viver segundo critérios de eclesialidade. Mesmo nesta certeza, não deixa de ser oportuno que os cavaleiros de Nossa Senhora reflictam sobre o seu lugar na Igreja e o seu compromisso com o mundo».
Dom Jorge Ortiga, Arcebispo de Braga e Primaz das Espanhas na cerimónia de armação de cavaleiro realizada no dia 18 de Julho de 2018
Foi graças à sua diligência e interesse em dotar a Militia Sanctæ Mariæ (Portugal) de instalações condignas para o culto e a sua acção apostólica, que nos foi facultado o uso da igreja da Lapa, no centro da cidade de Braga (2017), onde, no dia 14 de Julho de 2018, conferiu a Benedictio Novi Militis a três novos cavaleiros da MSM.
O primeiro Capelão português da MSM, Dom Gaspar Rodrigues da Costa OSB, monge de Singeverga, assina o codicilo da sua profissão como Capelão de Obediência, sobre o altar mor da Catedral de Chartres
O abraço de Dom Lafond a Dom Gaspar após a profissão deste como Capelão da MSM (finais dos anos 70 do século XX), na presença do Mestre André Jozan
No XV Capítulo Geral, que decorreu em Chartres (França), em 12 de Agosto de 1972, a Ordem dos Cavaleiros de Nossa Senhora adoptou a designação que se mantém: Militia Sanctæ Mariæ – cavaleiros de Nossa Senhora.
Dom Lafond entre o 2º Mestre da MSM, André Jozan e o actual, 7º Mestre, Carlos Aguiar Gomes, procedendo à assinatura do pergaminho que está na primeira pedra da cripta da Comendadoria da Imaculada, 14 de Agosto de 1976
Dadas as suas altas capacidades intelectuais, o agora monde beneditino, faz os seus estudos superiores. Primeiro no Instituto Católico de Paris onde faz o seu Mestrado em Teologia. Depois, vai para Roma, para o Instituto Bíblico para fazer o Mestrado em Sagrada Escritura (1965). Com esta magnífica formação superior, Dom Lafond volta ao seu mosteiro e aí, de 1965 a 1985 é professor de Sagrada Escritura dos jovens monges e assume as funções monásticas de Bibliotecário.
Neste período de tempo, ocupa-se com autorização do seu Abade da MSM e da formação bíblica para leigos que frequentam S. Wandrille. Em Dezembro de 1985 é nomeado Prior Administrador do mosteiro de S. Paul de Wisques até que em 1988 é eleito 4º Dom Abade deste mosteiro, serviço que vai desempenhar até 3 de Fevereiro do ano 2005, ano em que resigna do serviço abacial, mas não do seu serviço à Igreja. É sob o seu abaciado, em 1995, que é celebrado o centenário da erecção canónica do seu mosteiro.
Como Dom Abade Emérito funda e dirige um grupo de intelectuais de várias formações académicas e científicas, em estreita colaboração com o Conselho Pontifício para a Cultura. É o “Novo Olhar”, grupo de “buscadores de sentido” e de “buscadores de Deus”. Deste grupo sai a sua última obra, que já não vê pois a edição de “L’ EVEIL DU REGARD” chegou ao seu mosteiro no dia seguinte ao da sua morte, 31 de Outubro de 2010. Esta é uma obra de um grande intelectual sempre preocupado e ocupado em “alargar cá em baixo as fronteiras do Reino de Deus” ou como disse numa entrevista, a propósito deste projecto: “Ao olhar fragmentado sobre um mundo fragmentado deveria substituir-se um olhar unificado sobre um mundo em comunhão.” (1 de Março de 1997).
Dom Gérard Lafond foi um autor muito prolífico. Escreveu muitas cartas, textos de opinião/formação para os freires da MSM, alguns deles compilados no livro “Cavalaria de Ontem e de Hoje” ou “Princípios para uma Nova Cavalaria”. Deixou-nos, igualmente, uma Liturgia das Horas que procura ser um renovado, segundo as normas conciliares, o Ofício Menor de Nossa Senhora, que os freires da MSM devem seguir na recitação privada ou quando estão reunidos. Não pode esquecer-se os 3 Capitulares doutrinais, aprovados em Capítulo Geral, mas de sua autoria, além de documentos de formação sobre temas candentes como o que dedicou ao Novo Ordo Missæ, à “Teologia da Libertação” (“Libertação e Salvação do Homem em Jesus Cristo” – Pentecostes de 1974) e à Verdadeira interpretação do Concílio (1967). São dele, também, as Constituições, o Ritual e o Costumeiro ainda em vigor. Não se poderá deixar de referir as suas 18 “Cartas de Roma” que dirigiu aos “filhos espirituais” durante os seus estudos em Roma e acompanhando os trabalhos do II Concílio Vaticano.
Sempre que era autorizado pelo Dom Abade de S. Wandrille, participava nos Capítulos anuais da MSM, que ainda actualmente se desenrolam em Chartres, para com a sua presença construtiva orientar os seus filhos espirituais e amigos.
Em 1981, no final do solene Pontifical do 15 de Agosto, Dom Lafond, com muitos freires presentes, faz a consagração da sua MSM ao Imaculado Coração de Maria. Este acto de consagração foi proclamado por Dom Gérard Lafond (fundador da MSM), na presença de Dom Paul Seitz, Capelão Geral da MSM (Bispo refugiado do Vietname). O texto original foi depositado aos pés da imagem de Nossa Senhora na Capela das Aparições de Fátima pelo cavaleiro Carlos Aguiar Gomes, então Provincial de Portugal, depois levada para os arquivos do santuário.
Participando na procissão do dia 15 de Agosto, O Fundador e o primeiro Mestre da MSM
Em 1995 entregou-nos o que se pode chamar de “Testamento Espiritual” ou “Mensagem de Chartres” em que procurou fazer uma avaliação desta sua filha, a MSM, e indicar-lhe caminhos de renovação na fidelidade absoluta à Igreja e atenta aos novos sinais do mundo. Este documento é notável sob o ponto de vista de análise crítica e de perspectivas para a renovação da MSM imposta pelos novos tempos que impõem uma Nova Evangelização, mais atenta aos sinais dos tempos tão mutantes e a um relativismo feroz a que a Ordem fundada por si tem de saber dar resposta, aliás na linha da verdadeira Tradição inimiga do conservadorismo.
A presença de Dom Lafond era um estímulo muito forte pelo seu pensamento, pela sua devoção ardente a Nossa Senhora, pela tenaz fidelidade ao Papa, à Liturgia bem celebrada (aceitou de coração aberto o Novo Ordo Missæ, contra a opinião de alguns membros da MSM mais conservadores, o que trouxe o afastamento destes) e sempre preocupada pela necessidade de se estar atento e interventivo aos sinais dos tempos. Esta preocupação está bem expressa no chamado “Testamento de Chartres”, atrás referido.
Em 31 de Outubro de 2010 deixou-nos, mas a sua presença ficou entre nós, sobretudo para os que tiveram a graça de ter convivido com ele e escutado o seu pensamento.
Cada vez mais se torna fundamental regressarmos aos escritos do nosso Fundador.
A sua cruz peitoral de Fundador da MSM ficou à guarda da Diocese de Chartres.
Dom Gérad Lafond partiu ficando e ficou partindo.
Paz à sua alma.
Eterna gratidão dos seus “filhos espirituais”.
Braga, 31 de Outubro de 2019, no 9.º aniversário da sua morte.
O Mestre e primeiro servidor da MSM
Carlos Aguiar Gomes
Miles – pauper et peccator)
Dom Gérard Lafond, OSB, já Dom Abade Emérito de S. Paul de Wisques
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